sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Evangelho de Tomé


O EVANGELHO DE TOMÉ – UMA BREVE INTRODUÇÃO


José Aristides da Silva Gamito


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Introdução

O Evangelho Copta[1] de Tomé foi uma das mais sensacionais descobertas arqueológicas do século XXI. O documento era desconhecido antes de 1945, quando camponeses cavavam por adubo perto da aldeia de Nag Hammadi, no Egito. Acidentalmente, eles descobriram um jarro contendo 30 manuscritos cobertos de couro enterrados algum dia do século quarto. Quando os manuscritos chamaram a atenção dos estudiosos de antiguidade, suas importâncias foram imediatamente reconhecidas: Eles continham 52 tratados, principalmente de cristãos gnósticos. Embora, originalmente escritos em grego, os escritos estavam em uma tradução copta. Muitos deles eram conhecidos apenas pelo título. Hoje esses escritos são conhecidos pela Biblioteca de Nag Hammadi.
Nenhum dos 52 tratados tem chamado tanto a atenção quanto o Evangelho de Tomé.  Para essa coleção de ditos de Jesus que reivindica como autor Dídimo Judas Tomé.  O texto inicia afirmando: “Estes são os ensinamentos secretos que Jesus Vivente disse e que Dídimo Judas Tomé escreveu”. Segundo algumas lendas, Tomé era irmão gêmeo de Tomé (EHMAN, 2003).

Conteúdo do Evangelho de Tomé

O livro registra 114 ensinamentos secretos de Jesus. E não inclui outros materiais: Milagres, narrativa da paixão, histórias da infância. O que realmente importava para o autor não era a morte e ressurreição de Jesus, as quais ele não menciona, mas a doutrina misteriosa que ele transmitiu. De fato, o Evangelho começa com afirmando que conhece a interpretação dessas palavras terá a vida eterna.
Muitos desses ditos soarão familiar aos leitores que já conhecem os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Por exemplo, nele será encontrada a passagem “cego guiando cego” e as parábolas do semeador e do grão de mostarda (ditos 9, 20, 34).  Outros ditos, contudo, são bastante diferentes e procedem de um ponto de vista gnóstico, nos quais as pessoas são compreendidas por serem espíritos que vieram do reino divino e que estão aprisionados na matéria (na prisão dos corpos materiais).  A salvação segundo esta perspectiva vem para aqueles que aprendem a verdade de sua condição e estão aptos a se libertarem desta existência material empobrecida pela aquisição do conhecimento necessário a salvação (ver ditos 11, 22, 29, 37 e 80). Jesus é quem transmite este conhecimento (ERHMAN, 2003).
Alguns ditos do Evangelho encontram paralelos nos canônicos. Outros soam estranhos a leitores familiarizados com os canônicos. Assim como aqueles, o texto de Tomé combina falas de Jesus a falas atribuídas a Jesus por outras pessoas. As discussões sobre o Tomé já cobrem meio século, porém, pouca atenção foi dada ao evangelho pelo fato de ter sido considerado gnóstico por alguns autores. Stevan L. Davies afirma que o evangelho não é gnóstico e o situa no contexto da Igreja Primitiva.
O Evangelho Copta de Tomé era conhecido anteriormente a descoberta de Nag Hammadi através de fragmentos de papiros em grego encontrados em 1897 e 1903 próximo a cidade egípcia de Oxirrinco[2]. O texto copta foi traduzido para o inglês na década de 50 (DAVIES, 1983).

Data da redação do Evangelho de Tomé

Alguns estudiosos sustentam que os ditos de Tomé podem ser os mais próximos ao que Jesus ensinou na realidade do que nós encontramos no Novo Testamento; outros, contudo, apontaram que esses escritos gnósticos não podem ser situados no começo do século II. Assim, enquanto alguns desses escritos podem ser bem antigos – voltando ao tempo de Jesus mesmo – o documento na íntegra pode ter sido escrito algum tempo depois dos evangelhos canônicos, possivelmente bem cedo no século II (ERHMAN, 2003).
Segundo Valantasis, estudiosos propõe como datas possíveis para a redação do Evangelho de Tomé mais antigo o ano 60 e o mais tarde 140. Os códices encontrados são do século III. Considerando as características comuns a outros escritos cristãos dos primeiros séculos Valantasis surge que deva ter sido escrito entre 100 a 110. A teologia implícita no texto aproxima da tendência do evangelho de João e as cartas de Inácio. Os textos das parábolas indicam a precedência de Tomé ao século II.

REFERÊNCIAS

EHRMAN, Bart D. Lost Scriptures: Books that did not make it into the New Testament. New York: Oxford University Press, 2003.

DAVIES, Stevan. The Gospel of Thomas and Christian Wisdom. New York: The Seabury Press, 1983.




[1] O copta saídico é o dialeto copta com mais textos escritos. Era a variante mais difundida anterior a época do islamismo. Foi altamente utilizado na literatura no século XV e sobreviveu até o século XIV (WIKIPÉDIA, 2016).
[2] Oxirrinco é uma cidade egípcia situada a 160 km a sul-sudoeste do Cairo, no Egito. Atualmente, é conhecida em árabe por El-Bahnasa. É um sítio arqueológico onde foram encontradas importantes coleções de papiros (WIKIPÉDIA, 2016).

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Papias de Hierápolis e o destino de Judas


AS CONTRADIÇÕES TEXTUAIS SOBRE O DESTINO DE JUDAS
E O TESTEMUNHO DE PAPIAS DE HIERÁPOLIS


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            Judas Iscariotes foi um discípulo de Jesus que passou para a história com uma fama muito negativa, como traidor. Além disso, seu destino é controverso. No testemunho de Mateus, encontramos a seguinte informação: “E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar” (Mt 27,5). Mas Lucas dá outra versão: “Ora, este adquiriu um campo com o galardão da iniquidade; e, precipitando-se, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram.” (At 1,18). Afinal, quem diz a verdade?
            Na versão de Mateus, Judas se arrependeu de ter traído seu mestre e devolveu o dinheiro que recebeu das autoridades judaicas. Mas Lucas não o mostra como tão arrependido porque diz que ele comprou um terreno com o dinheiro da delatação e que morreu precipitando-se. Temos dois testemunhos: a) Mateus – um discípulo de Jesus; b) Lucas – um discípulo de Paulo.
            Um terceiro testemunho seria interessante para desempatar a contradição. E o temos! Papias de Hierápolis também registra o destino de Judas na sua obra “Exposição das Sentenças do Senhor”, segundo o testemunho de Apolinário de Laodiceia.  Papias concorda com Lucas, ao dizer que Judas não morreu enforcado, mas sobreviveu àquele momento, morrendo depois em consequência dos ferimentos da queda.

“2. Mas Judas foi neste mundo como um grande modelo de impiedade. Ele ficou tão inchado na carne que ele não poderia passar por um lugar que fosse facilmente larga o suficiente para um vagão - nem mesmo seu inchado cabeça caberia. Dizem que suas pálpebras se incharam de tal forma que ele não conseguia enxergar a luz; e um médico não podia ver seus olhos mesmo com um dispositivo óptico, tão profundamente afundado eles estavam no carne circundante. E seus genitais se tornaram mais repugnante e maior do que qualquer um; simplesmente aliviando ele mesmo, para sua vergonha devassa, ele emitiu pus e vermes que fluíam por todo o seu corpo.
3. E eles dizem que depois que ele sofreu numerosos tormentos e punições, ele morreu em sua própria terra, e essa terra foi, até agora, desolada e desabitada por causa do mau cheiro. De fato, mesmo nestes dias ninguém pode passar pelo lugar sem segurar o nariz. Foi assim que um grande derramamento fez de sua carne no chão”.


                O testemunho de Papias é importante porque ele foi discípulo de João juntamente com Policarpo de Esrmina. Estes dois autores ouviram a pregação de João e as suas recordações sobre o tempo de Jesus. O que parece ter ocorrido nos dois relatos é o modo como explicaram, Mateus atribui a morte ao enforcamento e Lucas às consequências do enforcamento. O que dá entender é que Judas tentou suicídio e não morreu na hora. Neste caso, parece que o testemunho de Papias salva a contradição do Novo Testamento.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Série Christianitates - Os apocalipses apócrifos 05



OS APOCALIPSES APÓCRIFOS

José Aristides da Silva Gamito

Introdução

Os cristãos contemporâneos comumente conhecem como apocalipse, o Apocalipse de João. Mas ele é apenas um exemplo de vários textos do cristianismo primitivo com este nome. São textos com visões apocalípticas, mesmo que nem todos tenham este título. Os apocalipses são um gênero literário que se caracteriza pelas revelações sobre os últimos acontecimentos da história, sobre os segredos do além-mundo com descrições do céu e do inferno e concepções sobre a origem do mal e do pecado (SCNEEMELCHER, 2003, p. 549).
Há textos apocalípticos tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento e também em textos apócrifos. Os apocalipses cristãos se preocupam com o final dos tempos e sobre como seriam o céu e o inferno. O cristianismo primitivo viveu uma fase de preocupação com os fins dos tempos e com a volta imediata de Jesus e isso gerou muitos textos sobre visões e revelações. Abaixo elencamos alguns apocalipses, muitos deles só foram conhecidos a partir das descobertas de Nag Hammadi.

Apresentação dos apocalipses

Dentre os textos descobertos em Nag Hammadi, no Egito, há cinco apocalipses. São eles: Apocalipse de Paulo, 1º Apocalipse de Tiago, 2º Apocalipse de Tiago, Apocalipse de Adão e Apocalipse de Pedro.  Nesta lista, acrescentamos outros também:
Apocalipse de Pedro: É um texto da primeira metade do século II, escrito no Egito, conhecido atualmente através de uma versão etíope. O cânone muratoriano, uma das listas mais antigas sobre os textos sagrados do NT, o inclui como escritura sagrada. Clemente de Alexandria também o considera. O apocalipse apresenta um discurso de Jesus aos seus discípulos, descrevendo uma jornada ao céu e ao inferno e os eventos terríveis do julgamento final. Há outro texto com o mesmo título pertencente aos cristãos gnósticos.
Apocalipse de Paulo: O apocalipse mostra o apóstolo ascendendo ao céu para receber uma revelação sobre o destino da alma após a morte. É datado do final do século IV. Segundo Bart Ehrman, a descrição de céu e inferno propagada no ocidente deve muito a essas tradições.
1º Apocalipse de Tiago: pode ser provavelmente do século III. Ele contém revelações do Salvador antes da Paixão e depois da ressurreição. Aparece neste a ascensão da alma depois da morte. Esta uma marca característica dos apocalipses. O 2º Apocalipse do Tiago também tem revelações de Jesus a Tiago e uma batalha contra o criador do mundo material e seus arcontes é a idéia central.
O Apocalipse de Adão pode ser situado como originário do século II ou I.  O destinatário da revelação nesta obra é Set, filho de Adão. Ele contém características comuns com a literatura apocalíptica judaica.
 Apocalipse de Maria: É um texto tardio do século IX, contém as visões de Maria sobre os condenados sofrendo torturas no inferno. Há um segundo Apocalipse de Maria do século VII.
Além destes, termos os seguintes apocalipses: Apocalipses de João (em três versões, séculos V, VI e XI), Apocalipse de Estêvão (também chamado de Revelatio Sancti Stephani), Apocalipse de Tomé (texto do século V).

Considerações finais

Os textos canônicos não eram os únicos textos do ambiente judaico e cristão, eles são apenas um recorte de uma vasta literatura religiosa, da qual alguns ganharam o status de Escrituras Sagradas. O estudo aprofundado do Apocalipse de João pressupõe o conhecimento da literatura apocalíptica. Muitos problemas de interpretação do Apocalipse de João provêm do desconhecimento de todo o gênero apocalíptico.
O homem religioso sempre teve curiosidade sobre o seu destino e sobre fim da humanidade. Autores de alguns ramos do judaísmo e do cristianismo usaram a imaginação para descrever como seria a consumação da história. Esses textos foram recebidos pela curiosidade popular com muito “terrorismo”. Mas se o leitor compreender os usos das imagens, símbolos e mitos contidos neste texto terá uma visão mais confortável destes textos.


Referências

CHAVES, Julio César Dias.  The Nag Hammadi Apocalyptic Corpus: Delimitation and Analysis. Québec: Université Laval, 2007.

EHRMAN, Bart D.  Lost Scriptures: Books that Did not in to the New Testament. Oxford/New York: Oxford University Press, 2003.

SCHNEEMELCHER, Wilhelm. New Testament Apocrypha. Volume Two: Writings Related to Apostles; Apocalypses and Related Subjects. Louisville; Kentucky: Westminster John Knox Press, 2003.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Série Christianitates - As epístolas apostólicas apócrifas 04




AS EPÍSTOLAS APOSTÓLICAS APÓCRIFAS

José Aristides da Silva Gamito

Introdução

            As epístolas foram uma forma textual encontrada pelos primeiros apóstolos e bispos para se comunicarem com suas comunidades. Elas foram utilizadas inicialmente para resolver problemas locais, embora algumas epístolas continham instruções mais gerais. A maioria das epístolas atribuídas a Paulo foi admitida no Novo Testamento. Como o cânone não é resultado de um consenso simples e imediato, no Cânone muratoriano (de 170), as epístolas de Tiago, Hebreus e de Pedro não foram recebidas como “inspiradas por Deus”. Quando eu falo de cânone, eu me refiro à lista dos livros considerados inspirados por Deus (como AT e NT). Essas listas sempre foram motivos de controvérsias! Por exemplo, como vimos anteriormente, o Apocalipse de Pedro já foi livro sagrado.
            Muitas epístolas circulavam naquela época como escrita pelos apóstolos. Paulo foi o maior alvo dessas disputas. Algumas comunidades liam a Epístola aos Laodicenses e a Epístola aos Alexandrinos como textos autênticos do apóstolo. O Cânone Muratoriano dirá que elas não são de Paulo e nem devem ser lidas como sagradas. De modo geral, sabemos que os primeiros cristãos leram mais cartas como sagradas além daquelas que estão no Novo Testamento. Os cânones locais acabaram trazendo diferenças doutrinais e, consequentemente, divisões no cristianismo antigo.

Os escritos apostólicos apócrifos

            Há uma grande lista de epístolas que circularam na antiguidade como sendo da autoria dos apóstolos. Muitas se tratam de pseudepígrafos, porém, algumas perdidas podem remontar à tradição de algum apóstolo:

a)    Epístolas pseudo-paulinas:
            Epístola aos Laodicenses: É uma epístola antiga atribuída a Paulo, mas que segundo alguns heresiólogos seria um texto marcionita. O texto é associado à menção de Cl 4, 16. Ela foi preservada em muitos manuscritos latinos como o Códex Fuldensis datado de 546.
Epístola aos Alexandrinos: Seu nome é citado no Cânone Muratoriano como um texto a ser rejeitado. É considerada por este documento como um texto marcionita. Seu texto é desconhecido.
Epístola aos Macedônios: É um texto mencionado por Clemente de Alexandria. Pode ter sido uma epístola apócrifa atribuída a Paulo.
3ª Epístola de Paulo aos Coríntios: É uma epístola apócrifa atribuída a Paulo mencionada nos Atos de Paulo. Pode ter sido um texto da primeira metade do século II. Foi preservado no Papiro Bodmer X.

b)      Epístolas pseudo-petrinas:
Epístola de Pedro a Tiago: É uma epístola de Pedro transmitida pelas Homilias Pseudo-Clementinas. É do final do século II.
Epístola de Pedro a Filipe: É um texto do final do século II a início do século III. Foi conservada em língua copta nos códices de Nag Hammadi.

c)      Outras cartas
Epístola de Tito, discípulo de Paulo: É uma epístola preservada no manuscrito Códex Burchardi do século VIII. A obra poderia estar associada aos cristãos priscilianistas.
4ª Epístola de João: É uma epístola de João citada pelo Pseudo-Cipriano no texto De Duóbus Móntibus Sina et Sion.
Epístola de Barnabé: É uma epístola que também já foi considerada como texto sagrado. Já apareceu também no final do Novo Testamento.
Epístola dos Apóstolos: É uma epístola longa e data do século II. É um texto utilizado pela Igreja Ortodoxa Etíope.

Considerações gerais

            Além dos evangelhos, as epístolas apostólicas são fontes primárias da doutrina cristã. Portanto, a circulação de muitas epístolas tinha como pretensão utilizar a autoridade dos apóstolos para defender algumas doutrinas. O cristianismo primitivo estava dividido em vários grupos e muitos tinham seus cânones próprios.
            Nos primeiros séculos, alguns textos que hoje não são considerados canônicos gozaram de tal consideração como o Apocalipse de Pedro, Pastor de Hermas e a Epístola de Barnabé. Assim como outros hoje aceitos só entraram mais tarde como Tiago, 2ª Pedro e 2ª e 3ª João (cânone de Orígenes). A Epístola aos Hebreus, de Judas e o Apocalipse de João também foram alvo de divergências. Por outro lado, Eusébio de Cesareia nos informa que foi aceito por uns um quinto evangelho: o Evangelho dos Hebreus (25, 5). Este conjunto do Novo Testamento foi chamado de antilegómena (“obras em disputa”). Apesar do consenso em torno do cânone no século IV, as igrejas orientais e ocidentais ainda possuem diferenças em seus cânones.
            Neste vídeo (texto), o objetivo era mostrar que várias epístolas circularam sob as autoridades dos apóstolos. Muitas foram escritas em nome de apóstolos que já tinham morrido. O consenso em torno desses textos foi um processo lento e difícil de ser decidido. O cânone foi mais flexível no Oriente, a rigidez maior aconteceu no Ocidente.

Referências

EHRMAN, Bart D.  Lost Scriptures: Books that Did not in to the New Testament. Oxford/New York: Oxford University Press, 2003.

SCHNEEMELCHER, Wilhelm. New Testament Apocrypha. Volume Two: Writings Related to Apostles; Apocalypses and Related Subjects. Louisville; Kentucky: Westminster John Knox Press, 2003.


domingo, 5 de agosto de 2018

Série Christianitates - Os atos apostólicos apócrifos 03



OS ATOS ESCRITOS ALÉM DOS ATOS DOS APÓSTOLOS


José Aristides da Silva Gamito


O que é o gênero literário “atos”?

Além dos Atos dos Apóstolos do Novo Testamento, existem muitos outros textos antigos com o título de “atos”, em grego, práxis. Quando falamos de “atos”, no contexto da literatura cristã, estamos falando de uma narrativa que conta a história e as ações de um ou mais apóstolos no início da difusão do cristianismo. Os atos são texto narrativo de gênero literário similar ao romance e estão recheados de aventuras. Eles foram escritos entre nos séculos II e III.  
Os atos apostólicos podem ser caracterizados pelos seguintes conteúdos (júnior, 2014, P. 123): a) viagens apostólicas; b) discursos apostólicos; c) relatos de milagres; d) cenas de batismos e eucaristia; e) processos jurídicos em tribunais.
Na lista que apresentamos a seguir, elencamos os atos dos apóstolos mais mencionados. Eles, geralmente, contêm o título de “atos” de determinado apóstolo. E além dos doze apóstolos, aparecem três apóstolas nestas narrativas Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena e Tecla. Como os apóstolos foram as pessoas que conviveram diretamente com Jesus e se tornaram guardiães dos ensinamentos do Mestre. Então, várias literaturas passaram a evocar a autoridade deles para divulgarem suas concepções sobre o cristianismo. O que temos, na verdade, são muitas “falsas autorias” ou pseudepigrafias.

Quais são os atos apócrifos?

A seguir elencamos alguns atos apostólicos: Atos de João, Atos de André, Atos de Paulo, Atos de Pedro, Atos de Tecla e Atos de Tomé. Comentaremos um pouco sobre cada um deles.
Os Atos de João descrevem as viagens de João na Ásia Menor e seus milagres. É um texto escrito na Síria no século II.
Atos de André: É uma obra do século II ou III e narram a atividade evangelizadora e os milagres do apóstolo André na Ásia Menor. Entre suas Orígenes sugeridas estão Síria, Egito ou Grécia. Foi utilizado entre cristãos encratistas, maniqueus e priscilianistas.
Os Atos de Pedro são do século II e contam a atividade de Pedro em Roma, suas lutas com Simão, o mago, sua morte na cruz e diversos milagres.
Os Atos de Paulo contam suas atividades em várias cidades, inclusive, sua morte em Roma. A presença das mulheres nobres nesta obra é um destaque. Encontra-se associado a esta obra os Atos de Paulo e Tecla. O contato de Paulo com o filósofo Sêneca aprece nessa obra.
Os Atos de Paulo e Tecla contam a história de uma amiga de Paulo chamada Tecla. Ela foi pregadora e exerceu liderança apostólica. O texto permite a defesa do direito das mulheres de pregar e de batizar. Tertuliano polemiza com este texto por causa do ministério feminino por volta no ano 200 na obra De Baptismo. É uma obra da segunda metade do século II.
Os Atos de Tomé narram a viagem e a evangelização de Tomé na Índia. Informa sobre a chegada do cristianismo à Índia. Acolhe também uma antiga tradução siríaca de que Tomé seria “gêmeo” de Jesus. É um texto do século III escrito na Síria.

Considerações finais

Na Idade Média, muitas histórias sobre a vida dos apóstolos foram popularizadas através da obra Legenda Aurea de Thiago de Varazze no século III e teve os atos apócrifos como uma das referências. Essas histórias também circularam através de contos populares. Muitos nem sabiam de onde vinham tais informações!
Os atos apostólicos apócrifos contêm narrativas diversas que partem desde possibilidades históricas até mesmo narrativas totalmente fantasiosas. Porém, muitas informações sobre a vida dos apóstolos provêm desses textos. Essas tradições foram acolhidas pela liturgia e pela devoção popular. Os atos apócrifos são analisados no campo da história social para a compreensão das relações de poder e controle social no cristianismo e no Império Romano dos séculos II e III.

Referências

ADRIANO FILHO, José. Atos Apócrifos dos Apóstolos: Subversão para com o Império. Anais do Congresso ANPTECRE, v. 05, 2015, p. 217.

FARIAS, Jacir de Freitas. A Vida e Atos dos Apóstolos: segundo Atos Apostólicos Apócrifos.  Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/Ribla/article/.../5556 Acesso em 06 dez. 2017.

JUNIOR, Elias dos Santos do Paraizo. O Pedro ulterior: Uma discussão axiológica a partir da tradução do Apócrifo Atos de Pedro. Florianópolis; Belo Horizonte: Universidade Federal de Santa Catarina, 2014.

SILVA, Carlos Alberto. Bem-aventurados os castos: Os atos de Paulo e Tecla e a desconstrução do sistema patriarcal. Revista Oracula, ano 11, n. 11, 2015.





sábado, 4 de agosto de 2018

Os evangelhos ortodoxos e heterodoxos


A REDAÇÃO DOS EVANGELHOS

José Aristides da Silva Gamito




A pluralidade de evangelhos

Além dos quatro evangelhos do Novo Testamento, foram escritos nos primeiros séculos do cristianismo vários outros. O gênero literário evangelho que se consagrou como “narrativas sobre a vida” de Jesus não é o único. Houve evangelhos de sentenças, , de diálogos, de narrativas, de sermões. Muitos autores se propuseram a escrever os ensinamentos e a vida de Jesus.
Os evangelhos surgiram a partir da necessidade de preservar o ensinamento de Jesus, com a morte dos apóstolos, havia o risco do esquecimento de suas palavras. Mas não houve um processo conjunto, articulado para realizar esta tarefa. Cada autor pesquisou e registrou aquilo a que teve acesso. Supõe-se que circulou inicialmente uma lista de ditos de Jesus chamada pela academia de “Fonte Q” e ela teria sido base para a redação de vários evangelhos.
Os diferentes evangelhos refletem o pensamento de sua comunidade de origem e as crenças que ela tinha. Portanto, temos vários olhares sobre Jesus. Algumas palavras de Jesus não foram registradas em evangelhos, mas aparecem em textos diferentes. Em Atos 20, 35, há uma frase de Jesus não registrada pelos evangelhos. Esses ditos de Jesus são chamados de “ágrafos”, literalmente, “não escritos”.
As palavras de Jesus vão crescendo à medida que vamos considerando outras fontes: como fragmentos de evangelhos, variantes em manuscritos e citações dos Padres da Igreja. Porém, esta diversidade de evangelhos foi sendo esquecida e o cristianismo hegemônico fechou seu cânone em quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João.

Os evangelhos antigos

Além de vários fragmentos de evangelhos, temos preservados integralmente ou quase integralmente muitos evangelhos. Estes evangelhos que não estão no Novo Testamento são chamados de “apócrifos” ou “heterodoxos”. 
Evangelho de Tomé: É um evangelho de sentenças, apresenta similaridades com os evangelhos canônicos e foi escrito num período entre 50 e 150 d. C.
Evangelho de Filipe: É um evangelho de sermão, temos acesso a uma versão copta do seu texto, é um texto da segunda metade do século III e esteve associado à Escola Valentiniana.
Evangelho dos Egípcios: É um evangelho preservado em fragmentos, seu uso é conhecido no século II, no Egito. O texto foi muito citado por dar destaque a Salomé.
Evangelho dos Hebreus: É um evangelho sobre a vida de Jesus, utilizado por judeus que viviam no Egito, é do início do século III.
Evangelho da Verdade: É uma exaltação da salvação trazida por Jesus Cristo, é da metade do século II.

I - Relatos da infância

Evangelho da Infância de Tomé: São narrativas da infância de Jesus, entre a idade de 5 a 12 anos, do início do século II.
Protoevangelho de Tiago: É uma narrativa sobre a vida de Maria, desde seu nascimento até seu casamento e nascimento de Jesus. É de meados do século II.

II - Relatos da paixão de Jesus

Evangelho de Pedro: É uma narrativa sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus do século II.
Evangelho de Nicodemos: É relato da condenação, da morte e da descida aos infernos de Jesus, é um texto tardio (século V).
Evangelho do Salvador: É um relato das últimas horas de Jesus antes de sua morte, é da segunda metade do século II.
Evangelho de Judas: É uma conversa entre Judas e Jesus três dias antes da Páscoa, é do século II.

III - Diálogos de Jesus ressuscitado

Evangelho de Maria: É um diálogo entre Maria Madalena e os apóstolos sobre os ensinamentos reservados de Jesus, é um texto do século II.
Evangelho Secreto de João: É um texto com ensinamentos de João a partir de uma aparição de Jesus após sua ressurreição, do século II.

IV - Versões alternativas aos canônicos

Evangelho dos Ebionitas: É uma versão mesclada dos evangelhos canônicos utilizada pelos cristãos judeus, no início do século II.
Evangelho dos Nazarenos: É uma versão aramaica do Evangelho de Mateus do século II, utilizada pelos cristãos judeus.
Evangelho Secreto de Marcos: É uma versão mais ampla do Evangelho de Marcos, espiritualizada.
Evangelho de Marcião: É uma versão editada do Evangelho de Lucas feita por Marcião no século II.
Evangelho da Diatéssaron: É uma versão harmonizada dos quatro evangelhos, composta do Taciano no século II, e utilizada na Síria.
Além destes textos, há os fragmentos de papiros que são centenas, dentre eles encontram-se variantes dos evangelhos canônicos e textos totalmente diferentes do como o Evangelho de Egerton (Papyrus Egerton 2) e o Evangelho de Oxirrinco (Papyrus Oxhyrrinchus 1224).

O que nos diz a variedade de evangelhos?

A existência de uma pluralidade de evangelhos nos permite as seguintes afirmações:
a) Houve várias tentativas de se registrar os ensinamentos e os fatos da vida de Jesus; b) Cada evangelho reflete a concepção que o autor ou a sua comunidade tinha sobre Jesus; c) Não existe um só gênero literário para os evangelhos; d) Com a variedade de versões do evangelho, alguns procuraram editar e padronizar esses textos; e) As palavras e os fatos sobre a vida de Jesus estão dispersos nesta variedade de documentos de modo que distinguir ficção de realidade é muito difícil; f) Como as comunidades cristãs eram tão diversos e tão diversos eram seus ensinamentos que um grupo de bispos, mais tarde, procurou fechar cânone em quatro evangelhos.
            As informações sobre o processo de redação do Novo Testamento auxiliam na compreensão como historicamente foram desenvolvidas as crenças básicas do cristianismo e como elas foram transmitidas.